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23 de Outubro de 2021

O Ingresso Voluntário das Mulheres nas Forças Armadas Brasileiras e suas Condições de Trabalho nos Quartéis

Publicado por Fabiana Farah
há 3 anos

RESUMO

A presença feminina nas Forças Armadas tem sido motivo de discussões nas áreas política e social. Ao ingressar na carreira militar, a mulher quebra preconceitos no ambiente masculino e rompe os paradigmas para receber o reconhececimento do seu trabalho. A pesquisa tem como tema o ingresso voluntário das mulheres nas Forças Armadas brasileiras e suas condições de trabalho nos quarteis, tendo como objetivo geral demosntrar o processo do ingresso voluntário das mulheres, identificando as suas condições de trabalho e as diferenças de tratamento recebidas dos superiores e subordinados. Relata-se um breve histórico das mulheres pioneiras e suas missões de paz, demostrar o processo do ingresso feminino nas Forças Armadas brasileiras e as leis que respaldam o serviço militar feminino dando ênfase nos depoimentos feitos com mulheres militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica como ser mulher e ser militar ao mesmo tempo, por que fizeram essa escolha profissional e as diferenças de tratamento recebidas por elas. Quanto à metodologia, tem como base uma pesquisa bibliográfica nacional sobre questões envolvendo o ingresso das mulheres nas Forças Armadas de material já publicado como livros e artigos, além de utilizar um formulário de entrevista com 8 mulheres militares abordando perguntas sobre o seu ingresso nas Forças Armadas, sua convivência, dificuldades e o seu cotidiano dentro dos quartéis.

Palavras-chave: Forças Armadas. Mulheres. Militar

ABSTRACT

The female presence in the Armed Forces has been the subject of discussions in the political and social areas. When entering the military career, the woman breaks prejudices in the masculine environment and breaks the paradigms to receive the recognition of its work. The research has as its theme the voluntary entry of women into the Brazilian Armed Forces and their working conditions in the quarters, with the general objective of demonstrating the process of voluntary entry of women, identifying their working conditions and the differences in treatment received from superiors and Subordinates. A brief history of the pioneer women and their peace missions is demonstrated, demonstrating the process of women's entry into the Brazilian Armed Forces and the laws that support women's military service, emphasizing statements made with Army, Navy and Aeronautical military women Such as being a woman and being a military man at the same time, why they made that professional choice and the differences in treatment they received. As for the methodology, it is based on a national bibliographical research on issues involving the entry of women into the Armed Forces of material already published as books and articles, in addition to using an interview form with 8 military women addressing questions about their entry into the Armed Forces , Their coexistence, difficulties and their daily life inside the barracks.

Keywords: Armed Forces. Women. Militar

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO........................................................................................ 08

2. DESENVOLVIMENTO........................................................................... 09

2.1.Breve histórico das mulheres nas forças armadas

brasileiras........................................................................................ 09

2.1.1. Missões de paz.......................................................... 12

2.2. O ingresso voluntário das mulheres na atualidade...... 15

2.2.1. Exército Brasileiro..................................................... 16

2.2.2. Marinha do Brasil...................................................... 16

2.2.3. Força Aérea Brasileira............................................. 18

2.3. Legislação que regulamenta o ingresso da mulher nas

forças armadas.............................................................................. 19

2.4. Presença feminina em atividades militares..................... 22

2.4.1. Ser Mulher X Ser Militar........................................... 23

2.4.2. Diferenças de tratamento recebido pela mulher

militar nos quartéis.............................................................. 25

3. CONCLUSÕES FINAIS......................................................................... 28

4. BIBLIOGRAFIA....................................................................................... 30


1. INTRODUÇÃO

Embora a igualdade de gêneros e toda discriminação estejam assegurados na Constituição Federal Brasileira, o ingresso voluntário das mulheres nas forças armadas, ainda é um grande desafio. A busca pela igualdade do tratamento, entre homens e mulheres no mercado de trabalho, proporciona alguns argumentos de que a participação da mulher não seria conveniente nos quarteis militares visto que a sua fragilidade a levaria a incapacidade de força, despreparo físico, sem estrutura para fazer as atividades exigidas na carreira militar. Vale salientar que, outrora, argumentos semelhantes foram feitos para se afirmar que as mulheres não poderiam ser médicas, advogadas ou engenheiras. Todavia, as mulheres provaram muita bravura ao demonstrarem, ao longo dos tempos, muita coragem e preparo fundamentais para exercerem suas profissões, inclusive a carreira militar.

Com base nessa realidade, a pesquisa tem como objetivos demonstrar o processo do ingresso voluntário das mulheres nas forças armadas brasileiras, identificando as suas condições de trabalho nos quartéis e as diferenças de tratamento enfrentadas por essas mulheres militares. É notável que uma mulher vocacionada a carreira militar, não se contenta com trabalhos burócráticos, mas busca alçar grandes voos e atingir patamares como fuzileiras navais, oficiais do exército e da aeronáutica, nas linhas de frente, preparada para combater ou participar em ações de conflitos.

A pesquisa apresenta, inicialmente, um breve histórico da participação feminina nas forças armadas brasileiras, ressaltando as mulheres pioneiras e suas missões de paz. Destaca-se, também, o processo do ingresso voluntário feminino no Exército brasileiro, na Marinha do Brasil e na Força Aérea Brasileira. Passeia-se na legislação que ampara o tema abordado.Trata-se, ainda, do papel da mulher militar e suas conquistas, sua presença em atividades militares e o tratamento diferenciado recebido nos quarteis.

Quanto a metodologia, além da pesquisa bibliográfica sobre questões envolvendo o ingresso das mulheres nas Forças Armadas, serão feitas análises sobre a legislação, normas e regulamentos utilizados nas Forças Armadas. Serão aplicados formulários de entrevistas individuais e em grupos com 8 mulheres militares.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Breve histórico das mulheres nas forças armadas brasileiras

A trajetória da mulher militar brasileira tem sido muito marcante nas Forças Armadas. Em 1822, a primeira mulher , Maria Quitéria de Jesus Medeiros, sem a permissão do pai, alistou-se travestida de homem no regimento de artilharia para combater os portugueses na Guerra da Independência brasileira integrando o Batalhão dos Periquitos. O soldado Medeiros, como era chamada, era muito audacioso, disciplinado e hábil com as armas. Por todas essas características, foi em seguida transferida para a Infantaria onde participou do Batalhão dos Voluntários do Imperador.

Maria Quitéria foi descoberta pelo pai, mas por conta das suas habilidades com as armas e sua dedicação, o major Silva e Castro não autorizou seu desligamento do grupo, conquistou o respeito dos companheiros e assumiu a sua posição feminina deixando de lado as roupas masculinas. Sua independência pessoal incentivou e liderou os futuros movimentos feministas.

Embora a Independência do Brasil tenha sido declarada por D. Pedro I no dia 7 de setembro, as tropas portuguesas continuaram a luta no país. Maria Quitéria comandou e se destacou no grupo de mulheres que lutavam na foz do rio Paraguaçu, na Bahia. No ano seguinte, os portugueses foram derrotados e Maria Quitéria foi homenageada como heroína pelo imperador e recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro.

Maria Quitéria passou a viver no anonimato quando casou-se com o antigo namorado lavrador e teve uma filha, Maria Luiza. Depois da morte do marido, mudou-se para Salvador com a filha e ficou progressivamente cega falecendo em 1853.

Através do Decreto de 28 de junho de 1996 foi instituída como Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Em 1953, aos cem anos de sua morte, o governo brasileiro decretou que o retrato de Maria Quitéria fosse colocado em todos os estabelecimentos, repartições e unidades do Exército do Brasil.

O Exército teve sua primeira turma feminina em 1992 com 49 alunas na Escola de Administração do Exército. Somente no ano de 1996 foi instituido o serviço militar feminino voluntário para médicas, dentistas, veterinárias, farmaceuticas e enfermeiras com nível superior.

. A Marinha do Brasil foi pioneira ao abrir seus quadros e suas unidades para o trabalho feminino através da Lei nº 6.807, de 07 de julho de 1980, criando o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM), que se dividia em Quadro Auxiliar Feminino de Oficiais (QAFO) e Quadro Auxiliar Feminino de Praças (QAFP) para cargos técnicos e administrativos através de concurso público. Na época era Ministro da Marinha o Almirante de Esquadra Maximiano Eduardo da Silva Fonseca.

A médica do Corpo de Saúde da Marinha, Dalva Maria Carvalho Mendes, tornou-se a primeira mulher brasileira a alcançar o posto de official general das Forças Armadas e alcançar o posto de primeira Almirante da Marinha do Brasil.

Em comemoração aos 30 anos do ingresso da mulher militar na Marinha, a official mais antiga do Serviço Ativo, Capitão-de MareGuerra (MD) Cláudia Yago fez leitura de exortação da data, seguida pelo coral de Oficiais da Marinha cantando o hino “Mulheres em Armas”.

O livro “Mulheres a Bordo”, escrito por duas oficiais da Marinha brasileira, a Capitão-de-MareGuerra Sheila Aragão de Andrada e a Capitão-de-Fragata Helena Maria Peres, marca os 30 anos da primeira turma feminina da Marinha. O livro relata o pioneirismo das mulheres e suas necessidades de rotina, como as mudanças ocorridas, o apoio recebido pelos superiores, todos homens.

“— Eles não tinham nenhuma referência para lidar com a gente. Aos poucos perceberam as nossas necessidades e foram incorporando mudanças. Ao mesmo tempo, tivemos muito apoio dos superiores, todos homens. Eles sempre ressaltavam o nosso pioneirismo, e isso nos deixou orgulhosas” — explica Sheila. (1)

A Marinha chamou o renomado estilista da moda brasileira Guilherme Guimarães para desenhar a farda da primeira turma de mulheres. Com ele vieram as modelos Carla Souza, Liz Machado e Isis de Oliveira que posaram com as roupas militares. Como os uniformes foram feitos com as medidas das marinheiras dos EUA, as costureiras tiveram que adequar ao biótipo brasileiro.

A exigência do corte do cabelo surpreendeu a todas elas. A capitão-de-mareguerra Sheila Aragão foi a primeira a cortar suas madeixas em chanel, modelo seguido por algumas colegas. Porém, preferiu prendê-los com um coque. Essa idéia de prender os cabelos agradou tanto que passou a ser obrigatório. Atualmente, as mulheres militares da Marinha podem manter os fios longos presos em coque ou rabo de cavalo, ou cortar curtinho.

Atualmente, as mulheres desempenham atividades nas seguintes áreas, como praças ou oficiais: medicina, apoio à saúde, engenharia, arquitetura, construção civil, pedagogia, contabilidade, administração, direito, história, comunicação social, museologia, biblioteconomia, informática, economia, serviço social, psicologia, entre outras.

A Força Aérea Brasileira criou, em 1981, o Corpo Feminino da Reserva da Aeronáutica (CFRA) e no ano seguinte teve sua primeira turma feminina composta por 150 mulheres com a finalidade de compor o quadro de pessoal em área técnica e administrativa. O projeto inicial era manter o corpo feminino como reserva da Aeronáutica permanecendo no máximo por 8 anos na ativa , após esse prazo, poderia renovar o contrato.

Cercadas por um ambiente totalmente masculino, as mulheres se restringiam as atividades que eram consideradas para o gênero feminino como a Enfermagem, Assistência Social, Biblioteconomia, Comunicação Social, por exemplo.

A Lei nº 6.924/81, nos seus Arts. 16 e 17, permitia que as mulheres alcançassem no máximo os postos de Tenente Coronel e graduação de Suboficial, mas não era aceitável pela corporação o cargo de Coronel. Em 1990, foram admitidas mulheres Médicas, Farmaceuticas e Odontólogas que poderiam concorrer aos quadros gerais de carreira chegando ao posto de Brigadeiro.

(1) http://www.abmm.org.br/mil/mulheresabordo-capitao-de-mareguerra-sheila-aragao

Em 1995, a Aeronáutica permitiu o ingresso de mulheres no Curso de Formação de Oficiais Intendentes. Foi a primeira força armada a permitir o curso de formação militar igual ao masculino. Esse serviço é a parte logística voltada para as atividades de suprimento, como a distribuição de uniformes, equipamentos individuais, diversos tipos de munição e de gêneros alimentícios. Em operações, as intendentes proporcionam serviços de lavanderia e banho e de assessoria aos comandantes na contabilidade e administração financeira quando estão nos quarteis. É realmente um serviço cotidiano incansável para suprir todas as necessidades e satisfação da tropa. É um trabalho bastante respeitado e admirado por todos e requer estudos permanentes para acompanhar a evolução do material de intendência, que é muito dinâmico.

No ano seguinte, as mulheres tiveram acesso ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) que era composto exclusivamente por homens. Somente em 2002, pela primeira vez, foi concedido as cadetes mulheres, através de concurso público, o ingresso ao Curso de Formação de Oficiais Aviadores, curso superior, cujo objetivo era formação do Oficial Aviador. A primeira turma de mulheres formou-se em 2006 com bom desempenho ultrapassando o masculino.

Atualmente a Aeronáutica registra o maior número de mulheres em seus quadros, inclusive em postos de linha de frente ao combate, como pilotos de caça. Em 2013, a tenente-aviadora Carla Alexandre Borges foi a primeira mulher que pilotou um caça a jato, avião de alta performance, classe A-1.

A Academia Militar das Agulhas Negras, neste ano de 2017, receberá mulheres nos quadros de logística, intendência e material bélico como os armamentos, as viaturas e as aeronaves, no que diz respeito ao suprimento de peças e conjuntos de reparação destinados a esses materiais.

Segundo o site do Itamaraty, o Ministério da Defesa juntamente com as Forças Armadas Brasileiras estão unidos na política de promoção dos direitos femininos. As mulheres contam com uma parcela crescente e participativa nas atividades militares, estando presentes em eventos que as forças armadas atuem no seu cumprimento constitucional.

2.1.1. Missões de paz

Em 1956 foi criada a Força de Emergência das Nações Unidas (FENU) as Forças Armadas brasileiras vem participando de missões pacificadoras e combatendo os conflitos.

Em 2014, foi criada a Comissão de Gênero (CGMD) pelo Ministério da Defesa. Essa Comissão era consultiva, ligada ao Gabinete do Ministro e composta por representantes do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, da Secretaria Geral, da Escola Superior de Guerra, do Instituto Pandiá Calógeras e dos Comandos das Forças Armadas. Tinha por objetivo estudar, propor, acompanhar e avaliar as ações desenvolvidas no Plano de Ação e no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.

O Brasil tem enviado seus soldados para vários países do mundo em missões de paz e a presença das mulheres em atividades militares acontecia em períodos de guerra, embora fosse um momento especificamente masculino e que caracterizasse, na maioria das culturas, a profissão de soldado de guerra somente para os homens. As mulheres ocupavam o papel de enfermeiras cuidando dos ferimentos acometidos aos combatentes.

Porém, os conflitos armados, situações extremas e os desastres naturais exigiam que as Forças Armadas atuassem nesses momentos tão desproporcionais as mulheres e as crianças. Dessa forma, tornou-se essencial o papel das mulheres para previnir e solucionar os conflitos armados. É por isso que o Ministério da Defesa incentiva a participação das mulheres nas operações de paz e criou o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) para treinar e capacitar as tropas de paz com o objetivo de defender os direitos das mulheres e das crianças, bem como protegê-las dos abusos sexuais. Somente em 2000, as primeiras mulheres militares brasileiras começaram participar das missões de paz.

Nos anos 2000, as primeiras mulheres passaram a integrar os contingentes brasileiros em missões de paz. A pioneira foi ao Timor Leste, em 2003, e em seguida dezenas de mulheres participaram de outras cinco missões. O número máximo foi alcançado em março de 2012, quando 30 mulheres brasileiras estavam em diferentes missões, ao mesmo tempo.

Em 2010, a Coronel Carla Beatriz Medeiros de Souza Albach, do Quadro Complementar de Oficiais do Exército relata sua experiência:

“Decidir participar de uma missão de paz não é tarefa fácil. É saber que, por um bom tempo, trocaremos o aconchego e a convivência familiar pelo desconfortável e desconhecido”. (2)

Carla comandou a Seção de Intérpretes do segundo Batalhão do 17º Contingente da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). A tropa foi enviada para aquele país que havia sofrido um terremoto no início do daquele ano. Porém, ao chegar no Haiti, enfrentou um grande desafio: transformar o batalhão operacional em núcleo de desmobilização, pois a ONU havia iniciado a retirada gradativamente das tropas de lá.

Essa experiência trouxe várias vantagens para a profissional do idioma inglês usando suas habilidades de tradutora-intérprete num país cheio de culturas, raças e credos diversificados. Como prática militar, a Coronel Carla confirmou a sua escolha e aprendizagem de sua carreira dizendo que “considero uma das mais acertadas escolhas da minha vida profissional e pessoal.

A Tenente-Coronel Maria das Graças Andrade e a Tenente Paola de Carvalho Andrade, que integraram o 22º contingente brasileiro da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). A jornalista Paola exerceu atividades de imprensa e Relações Públicas, a advogada Maria das Graças atuou como assessora jurídica. Essa foi a segunda vez que a Tenente-Coronel Maria das Graças participou de uma missão no país caribenho para trabalhar no Batalhão de Infantaria de Força de Paz (Brabat) e a Tenente Paola participou da Companhia de Engenharia Brasileira no Haiti (Braengcoy).

Participar de missões de paz, seja no Brasil seja no exterior, proporciona as mulheres experiências marcantes em suas trajetórias como militares. A 2º Tenente da 10ª Região Militar do Rio de Janeiro e Assistente Social Rebeca vivenciou durante dois meses e meio de uma missão na Força de Pacificação do Complexo da Maré. Rebeca viu de perto fragilidades, problemas, angústias das famílias carentes e pode ter domínio na sua missão militar.

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(2) http://www.defesa.gov.br/index.php/noticias/18669-historia-de-mulheres-nas-forcaserepleta-de-lutas...

Ela expressou seu medo da seguinte forma: “o medo, a angústia, sempre vai existir, mas o que a gente vai fazer com aquela problemática vai ser o diferencial.” Foi uma experiência única, relatou Rebeca, sobre o seu trabalho de assistente social que fez com as famílias e com as comunidades locais.

A Segundo-Tenente Auxiliar Fuzileiro Naval Débora Ferreira de Freitas faz parte do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais. Débora é a primeira mulher combatente do Corpo de Fuzileiros Navais e das Forças Armadas a participar de uma tropa em missão de paz. Ao concluir o nível superior, fez concurso interno para o Quadro de Oficiais Auxiliares da Marinha sendo aprovada em 2014. Em seguida, Débora concluiu o curso de Especialização em Guerra Anfíbia no ano de 2016, tornando-se a primeira mulher habilitada a comandar um pelotão de Infantaria no Brasil.

Atualmente, Débora exerce a função de Oficial de assuntos civis e de comunicação social do GptOpFuzNav. Sua missão é planejar e executar ações de coordenação civil-militar para manter um ambiente seguro e estável na área de atuação do Grupamento. Como Oficial de comunicação social, faz divulgações do nome da Marinha do Brasil e dos Fuzileiros Navais para as Nações em geral. Orgulhosa comentou Débora:

“Eu me sinto honrada em participar dessa missão e ainda representar as mulheres, incentivando-as para que ingressem no CFN e tenham essa singular experiência” (3)

2.2. O Ingresso Voluntário das Mulheres nas Forças Armadas

Segundo a Constituição Brasileira, as mulheres são dispensadas do serviço militar. Porém, essa teoria não funciona na prática, pois cada vez mais o ingresso voluntário de mulheres nas Forças Armadas vem crescendo e abrindo portas para a carreira militar.

Mas o que leva uma mulher a ingressar voluntariamente nesse ambiente que, outrora, era exclusivo dos homens?

(3) www.forçasarmadasnews.com.br/2017/fuzileiros-navais-tem-sua-primeira-mulher-combatente.

Alguns fatores se destacam como a perspectiva de ascenção funcional dentro do mercado de trabalho, o respeito e a estabilidade da profissão e a própria vocação militar.

Portanto, as mulheres podem ingressar no serviço militar como militares de carreira ou temporárias.

2.2.1. Exército Brasileiro

O Exército Brasileiro é uma das três Forças Armadas do País, ao lado da Marinha e da Força Aérea. O Exército tem como missão “preservar e garantir a defesa da pátria, zelar pelo cumprimento pleno da constituição e pela manutenção da lei e da ordem”.

Para seguir carreira no Exército Brasileiro, as mulheres podem participar de concurso. É necessário ainda que tenham 1,55m de altura, que sejam brasileiras natas para o cargo de oficiais ou praças (podem ser também naturalizadas). Após o concurso, elas poderão ingressar nas seguintes escolas militares:

· Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx) – Curso Superior de acordo com edital.

· Escola de Saúde do Exército (EsSEx) - Curso Superior em Medicina, Farmácia e Odontologia

· Instituto Militar de Engenharia (IME) – Ensino Médio concluído.

· Escola de Sargentos de Logiística (EsSLog) – Ensino Médio concluído ou cursando o 3º ano do Ensino Médio.

Para as mulheres que desejam ser militares temporárias, os requisitos globais são os mesmos de carreira militar citados acima, acrescidos de 8 anos de permanência no máximo e não tem carreira militar:

· Oficial Médico/Farmacêutico/Dentista/Veterinário- Curso Superior

· Oficial Técnico Temporário – Curso Superior

· Sargento Técnico Temporário – Ensino Médio e Curso Técnico

· Cabo Especialista Temporário – Ensino Fundamental e Curso Técnico ou Profissionalizante

2.2.2. Marinha do Brasil

A Marinha do Brasil tem a missão de “preparar e empregar o Poder Naval, a fim de contribuir para a defesa da Pátria. Estar pronta para atuar na garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem; atuar em ações internacionais e em apoio à política externa do País, a fim de contribuir para a salvaguarda dos interesses nacionais”.

Para ingressar na Marinha do Brasil, no quadro funcional efetivo de carreira militar, as mulheres devem, também, participar de concursos públicos. Para as carreiras navais são necessários:

· Escola Naval - Nível de escolaridade: Ensino médio. Idade: 18 e menos de 23 anos. Farão provas escritas objetivas de Matemática, Português, Inglês e Redação. As mulheres na graduação de Aspirante, realizam o curso escolar em 4 anos letivos, sob regime de internato. Cada ano letivo tem um período de verão e um período acadêmico. No período de verão são realizados, respectivamente, o estágio de adaptação para as aspirantes do primeiro ano, o estágio de sobrevivência no mar, o estágio de sobrevivência na selva e outros para os aspirantes do segundo ano e viagens de instrução para os aspirantes do terceiro ano. Já no período acadêmico são realizadas as atividades de ensino, treinamento físico e formação militar-naval. O curso é feito na Escola Naval do Rio de Janeiro.

· Corpo Auxiliar de Praças – Ensino Técnico de Nível Médio Completo. Ser brasileiro nato. Idade de 18 a 24 anos. Realizam provas de conhecimentos profissionais e redação. Realizam curso de formação militar naval para exercerem atividades profissionais em ambiente militar-naval com o Cabos inicialmente. Em seguida, podem fazer cursos de especialização e de qualificação técnica para alcançar outras graduações. O curso auxiliar de praças é realizado no Centro de Instrução Almirante Alexandrino (CIAA) na cidade do Rio de Janeiro.

Vale acrescentar que essas mulheres militares ocupam cargos nas áreas de administração, informática, saúde, manutenção e reparo, executando atividades na Marinha do Brasil em terra, ou embarcando em navios de acordo com o serviço exigido.

· Quadro Complementar de Fuzileiros Navais – Nível de escolaridade: Superior. Ser brasileira e ter menos de 29 anos de idade. Realizará provas de Conhecimentos Profissionais e Redação. O curso acontece no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW) no Rio de Janeiro.

É composto pelos oficiais da Escola Naval e pelos militares voluntários, que são submetidos ao processo de seleção e treinamento no combate em terra, mar e ar. As mulheres no CFN tem a oportunidade de ingressar como Terceiro-Sargento no Quadro de Músicos, como aconteceu em 2004 com a Segundo-Tenente Auxiliar Fuzileiro Naval Débora Ferreira de Freitas.

A existência do CFN é também essencial para a defesa das instalações navais e portuárias, dos arquipélagos e ilhas oceânicas nas Águas Jurisdicionais Brasileiras, para atuar em operações de paz e em operações humanitárias, em qualquer lugar do mundo.

O ingresso na Marinha ainda pode ser feito como atleta temporário por um período máximo de 8 anos, através do recrutamento de atletas de alto nível feito pela comissão responsável em selecionar os atletas com índices olímpicos no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes.

2.2.3. Força Aérea Brasileira

A FAB tem como missão “manter a soberania no espaço aéreo brasileiro com vistas à defesa da Pátria.” Até o ano 2023, a Força Aérea Brasileira pretende ser “reconhecida, nacional e internacionalmente, pela prontidão e capacidade operacional para defender os interesses brasileiros em qualquer cenário de emprego, em estreita cooperação com as demais Forças.”

Quanto ao ingresso das mulheres na Força Aérea pode ser feito através das escolas de formação de Sargentos e Oficiais. Todas passam pelos exames de seleção, independente da escolaridade exigida, obedecendo as seguintes etapas: prova teórica, exame de aptidão psicológica, teste de avaliação do condicionamento físico, inspeção de saúde e através de concursos com provas de títulos e prática.

  • Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR) –Guaratinguetá (SP)

Para participar do Curso de Formação de Sargentos é preciso ter o Ensino Médio completo e ter menos de 24 anos de idade. O curso tem duração de dois anos e forma militares de carreira. As mulheres podem cursar nas seguintes especialidades: Eletricidade, Eletrônica, Equipamentos de Voo, Meteorologia, Suprimento, Administração, Informações Aeronáuticas, Cartografia, Desenho, Enfermagem e Eletricidade. No término do curso, a aluna recebe diploma com graduação de Terceiro Sargento especialista e chegar a Oficial.

  • Academia da Força Aérea (AFA) –Pirassununga (SP)

Para o Curso de Formação de Oficiais Aviadores e Intendentes, precisa ter concluído o Ensino Médio, não ter menos de 17 anos de idade e nem completar 21 até 31 de dezembro. Com duração de quatro anos, os cursos formam cadetes diplomadas AspiranteaOficial da Força Aérea Brasileira, podendo chegar a Oficial-General.

  • Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (CIAAR) –Belo Horizonte (MG)

A candidata precisa ter o curso Superior reconhecido pelo MEC, ter registro no Conselho Regional e ter 32 a 35 anos dependendo da especialidade. O curso tem duração máxima de 17 semanas nomeando a estagiária em Primeiro-Tenente que segue carreira militar como Oficial da FAB. Dentre as áreas disponíveis estão Medicina, Engenharia e Advocacia.

A Coronel Médica Carla Lyrio Martins é a primeira mulher a comandar uma organização militar da Força Aérea Brasileira. Sua indicação deve-se aos 25 anos de dedicação e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido como militar. Suas palavras de gratidão a FAB confirma a sua satisfação no trabalho:

“A Força Aérea valoriza o trabalho, independente de gênero, cor ou origem.

Para mim, a carreira proporcionou muita satisfação pessoal e aqueles que tiverem esse objetivo vão encontrar na FAB o reconhecimento pelo seu esforço”.(4)

2.3. Legislação que regulamenta o ingresso da mulher nas Forças Armadas

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(4) http://www.fab.mil.br/noticias/mostra/21283/COMANDO---Médicaea-primeira-mulher-comandante-de-uma-u...

De início, a legislação preocupou-se em determinar os direitos e os deveres voltados somente para os homens no que diz respeito ao serviço militar, deixando as mulheres isentas dessa obrigatoriedade. Vejamos algumas leis:

O Decreto-Lei nº 1.187 de 4 de abril de 1939 fala no seu Art. 1º que “Todo brasileiro é obrigado ao serviço militar para a defesa nacional, na forma das leis federais e respectivos regulamentos e o prestará de acordo com a sua situação, capacidade e aptidão.” Nesse mesmo Decreto-Lei, no seu parágrafo único diz que:

“As mulheres só em caso de mobilização serão aproveitadas em encargos compatíveis com a sua situação e natureza, seja nos hospitais no serviço de assistência noscomial fora das zonas das operações, seja nas indústrias e misteres correlatos com as necessidades da guerra.”(5)

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

De acordo com a lei do Servico Militar, nº 4375 de 17 de agosto de 1964, no seu Art. 1º “consiste no exercício de atividades específicas desempenhadas nas Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – e compreenderá, na mobilização, todos os encargos relacionados com a defesa nacional” e complementa no Art. que “Todos os brasileiros são obrigados ao Serviço Militar...” Porém, a mesma lei no seu § 2º isenta as mulheres do serviço militar em tempo de paz.

No ano de 1967, foi decretada a Lei nº 5292 de 8 de junho em decorrência de dispositivos da Lei nº 4.375 de 17 de agosto de 1964. Ela dispõe sobre a prestação do Serviço Militar pelos estudantes de Medicina, Farmácia, Odontologia e Veterinária e pelos Médicos Farmacêuticos, Dentistas e Veterinários.

Em 29 de junho de 1981, as mulheres foram autorizadas a participar do quadro militar através de seleção e depois passavam por exames. Seriam classificadas as melhores de acordo com o número de vagas.

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(5) Decreto-Lei nº 1.187 de 4 de abril de 1939-Parágrafo único

Foi criado, então, o Corpo Feminino da Reserva da Aeronáutica no Ministério da Aeronáutica através da Lei nº 6924.

Esse Corpo Feminino era “destinado a atender as necessidades do Ministério da Aeronáutica relacionadas com atividades técnicas e administrativas.” Os Art. 16 e 17 constiuem os postos para as Oficiais da Reserva que vai desde Segundo-Tenente até Tenente-Coronel e as graduações para as Graduadas que vai desde Cabo até Suboficial. Assim as mulheres poderiam galgar essas patentes na sua carreira militar, mas não chegariam a Coronel.

Além das leis e dos decretos sempre rigorosos para cumprir, as mulheres tem ainda que seguir os Boletins enviados pelos Ministérios,que aprovavam normas de conduta ético-militar e apresentação em atividades sociais, como também uso de adornos por parte das militares. Através de Portarias, a Marinha, por exemplo, definia os parâmetros de comportamento ideal das mulheres quando estavam em serviço, dando destaque aos valores morais e a apresentação pessoal, além de proibir o toque entre homens e mulheres. As instruções iam desde os cabelos, proibindo cabelos longos, penteados exagerados, o uso de franjas e determinava o tipo aceitável de corte, segundo as normas. “Se houvesse necessidade de cobrir lesão fisionômica” , as mulheres

teriam que pedir permissão aos superiores para usar um corte diferenciado . Proibido o uso de colar e pulseira, brincos só os pequenos, sem argolas ou pingentes.

As mulheres militares também tem direito à licença-maternidade através da Lei nº 13.109, de 25 de março de 2015. Elas passaram a contar com os mesmos direitos que eram concedidos as mulheres civis. A lei assinada pela presidenta Dilma Rousseff e pelo Ministro de Defesa Jaques Wagner dispõe sobre licença à gestante e adotante e garante às militares o benefício de licença maternidade e amamentação até que o bebê complete seis meses. A licença pode ser iniciada a partir do nono mês ou do parto, conforme sua preferência. Quanto às adotantes, a licença concedida é de 90 dias até que o bebê tenha menos de um ano. O benefício será de 30 dias caso a criança seja mais velha. Caso de aborto, a lei assegura 30 dias de recuperação para a militar.

E por fim o Projeto de Lei do Senado nº 213, de 2015, de autoria da senadora Vanessa Grazziotin, se encontra em trâmite no Senado Federal, pretende garantir as mulheres o ingresso voluntário do serviço militar com alistamento na Marinha, Exército ou Aeronáutica quando completarem 18 anos. O projeto ainda dá um prazo de até dois anos às Forças Armadas para que elas adequem seus alojamentos, vestiários e outras adaptações necessárias para o oferecimento do Serviço Militar Voluntário às mulheres brasileiras. A autora do projeto relata:

"Tenho dialogado bastante com representantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e ouvido as ponderações. Tanto é que a relatora, a senadora Lídice da Mata (PSB-BA), tem uma série de ementas para apresentar em seu relatório para que não ocorra nenhum conflito e não seja criada nenhuma dificuldade para as Forças Armadas Brasileiras"(6)

2.4. Presença feminina em atividades militares

As mulheres ingressaram em um universo masculino, cheio de regras para seguir e elas vieram para ficar com muita competência, responsabilidade, disciplina e elegância. Pacientemente vão ocupando patentes mais elevadas e são chamadas de Coronel, Capitão, Sargento e Tenente, assim mesmo no masculino. Usam farda, quepe, coque, meia-calça, botas (coturno), calça cargo com bolsos nas laterais. Carregam suas mochilas pesando 20 quilos, marcham e quando estão de plantão, lideram seus subordinados com arma na cintura. Treinam pesadamente iguais aos homens, incluindo tiro, sobrevivência na selva, no mar e no ar, além de resgates. Dedicação ao trabalho sem descuidar da casa, da família e da vaidade feminina.

Para preservar a identidade dos militares entrevistados, foram usados nomes fictícios, e por respeito de ética, foram omitidos os locais que prestam serviços e as suas patentes, pois a finalidade da pesquisa é demonstrar o

(6) jconline.ne10.uol.com.br/canal/política/nacional/noticia/2017/04/19/alistamento-militar-opcional-para-mulheres-pode-ser-aprovado-no-senado-279270.php

processo do ingresso voluntário das mulheres nas forças armadas brasileiras, identificando as suas condições de trabalho nos quarteis e pesquisar as diferenças de tratamento enfrentadas por essas mulheres militares. As entrevistas mostraram informações, opiniões e pontos de vista pessoais. É importante salientar que as informações recolhidas nos depoimentos das entrevistadas não podem ser generalizadas para todos os militares das organizações.

2.4.1.Ser Mulher X Ser Militar

Conciliar ser mulher e ser militar não é tarefa fácil, principalmente quando se tem uma carreira militar. Dentre as tarefas administrativas e missões de paz , a mulher possui uma vida pessoal com família e filhos, iguais as de uma mulher civil, porém adaptada. Tem que ter a parceria do marido e de toda a família, caso contrário, tudo fica mais difícil nessa adaptação.

Ao assumir uma carreira militar, a mulher deve estar preparada para receber críticas da família, dos amigos por deixar os filhos com o marido, com babás para seguir viagem ou mesmo permanecer dias nos quarteis.

No início, uma das grandes dificuldades foi a aceitação da superioridade hierárquica feminina para alguns homens subordinados. Evitar erros era primordial para não serem chamados a atenção e passarem vergonha. Assim, os homens se esforçavam para evitar qualquer transtorno, o rendimento melhorava e os conflitos eram evitados, deixando suas superiores orgulhosas do seu trabalho.

Antes de ser militar vem o ser mulher e para a instituição, é fundamental. Isso é nítido quando uma das entrevistadas diz que “Os homens nos aceitaram muito bem e torcem muito pra dar tudo certo. Nós mulheres damos sempre o melhor de nós para não decepcioná-los.”

A instituição pode até permitir a mulher militar chegar mais tarde e sair mais cedo por causa dos filhos, mas na hora das promoções ela pode ser prejudicada por isso e acaba sendo mal vista no local de trabalho. “Ao entrar no serviço, você tem hora, mas você não sabe a hora de sair…chegar tarde e sair cedo do trabalho pode me prejudicar como profissional.” E sobre ser mulher e ser mãe “…pesa demais na hora de escolher quem participará de uma viagem que ultrapasse 30 dias em alto mar por causa dos meus filhos” acrescenta a Oficial 2. Observou-se que na visão militar, uma mãe não deve ser distanciada da sua casa, do cuidado com os filhos e o marido, nem tampouco se arriscar a perder a vida em lugar do homem.

Para a Oficial 1, que não teve filhos, o trabalho militar é encarado como outro qualquer e decidiu dedicar-se a profissão e não ter uma família. Ela acrescenta: “ É muito difícil pensar numa carreira militar com filhos. Tenho mais tempo para estudar e me dedicar a profissão que tanto amo.” Também sem filhos, a Oficial 3 acrescenta ser ainda solteira e sem filhos “…sinto mais tranquilidade e me organizo melhor para desenvolver minhas atribuições no quartel”. Apesar da uma grande cobrança da família e da própria sociedade ao dizer que a mulher nasceu para ter filhos e procriar.

Ao perguntar as entrevistadas os motivos que as levaram a optar pela vida militar foram muito claras quando disseram que era a oportunidade de ter uma carreira sólida, de prestígio, de ter melhores chances na vida, de realizar o sonho de seus pais, oportunidade no mercado de trabalho, até fugir da rotina foi citado.

Para algumas, a vida militar era totalmente desconhecida.

A escolha da carreira militar foi influenciada pela família e pelos amigos e levaram em consideração alguns aspectos como a estabilidade do vínculo de trabalho e a garantia do salário, bem como o prestígio social que era atribuído aos militares, a coragem e a elegância traduzida nas fardas como relata a Oficial 7:”…sempre achei bonito ser militar, é desafiante.. minha mãe e minha avó foram grandes incentivadoras para minha decisão”. A busca por um emprego estável levou a Oficial 8 a ingressar na carreira militar quando estava desempregada “…eu tinha acabado de ficar desempregada quando fiquei sabendo que tinha um concurso…tinha prestado concurso uma vez e não tinha passado”. Nascida em família de militares, pai integrante da Força Aérea, a Oficial 1 escolheu a carreira militar porque “…fui criada com muita disciplina e organização…é uma carreira que tem regras, que dá oportunidade de crescer profissionalmente. Meu pai sentiu muito orgulho de mim.

Vale salientar que essas Oficiais sofreram muitas privações, críticas familiares, pois algumas delas deixaram suas profissões anteriores como bancária, engenheira de pesca e bibliotecária de uma empresa privada para assumirem suas carreiras militares.

A chance de entrar no mercado masculino, levou as mulheres a ter uma boa preparação física e intelectual para demonstrar e provar toda sua capacidade nas atividades militares.

Ao perguntar a Oficial 4 se ser mulher atrapalhou na sua carreira como militar ela acrescentou que foi bastante constrangedor quando estava de serviço e seu superior a pediu que desse comando de voz aos soldados. “…imediatamente meu superior falou num tom bravo comigo dizendo que eu falasse direito, alto e num bom tom. Eu tive que encontrar forças para não chorar e fazer o que foi solicitado.” No início do seu ingresso nas Forças Armadas, quase todas as entrevistadas falaram da dificuldade em ser chamadas com as patentes masculinas o tenente, o capitão, o soldado. Quando estão de plantão, são chamadas de oficiais de serviço. Nessa situação requer uma postura mais rigorosa, pois precisam dar ordens e tudo tem que estar sob controle. Isso acontece principalmente com as Oficiais do Dia, como são chamadas no Exército e na Aeronáutica. “ …a minha responsabilidade é grande. Eu tenho que inspecionar tudo da organização militar” afirma a Oficial 4.

2.4.2. Diferenças de tratamento recebido pela mulher militar nos quartéis

Ao ingressarem nas Forças Armadas, as mulheres, assim como os homens, recebiam boletins doutrinários, mas para as mulheres existia uma preparação mais específica de como deveriam seguir as normas naquela instituição, como deveriam agir, por serem mulheres, naquele novo espaço. Por sua vez, os homens não estavam preparados para conviver com elas diariamente. Não tiveram tempo para repensar nas suas atitudes ou esclarecer algumas dúvidas sobre a convivência, o trabalho, o tratamento ou as objeções em relação as características físicas femininas.

No início, havia um cuidado exagerado quando as mulheres passavam nos corredores, relatam entrevistadas. “…repentenamente surgia alguém apitando. Todos os homens que estavam no corredor saiam para que nós, mulheres, pudéssemos passar”. Após algum tempo, essa situação constrangedora não era mais aceitável. Hoje, as mulheres entram em formação com os homens, mas os alojamentos são separados. Alguns cuidados ainda são necessários dentro do quartel como “…estender nossas peças íntimas no varal improvisado sem a visão masculina (não é tarefa fácil) e colocarmos película escura na ventilação do banheiro para evitar curiosos.”, relato da Oficial 5 em relação aos aposentos. Observa-se que não só os homens estavam despreparados, mas a própria estrutura do prédio para receber as mulheres militares também.

Atualmente, ainda existe preconceito em relação a mulher ser escalada como Oficial de Serviço nos quarteis. Algumas sentem dificuldade em impor sua autoridade, em dar ordens, em charmar atenção de seus subordinados. Nota-se que esta postura varia de mulher pra mulher, mas não quer dizer que os homens desempenhem melhor sua função de Oficial de Serviço pelo simples fato de serem homens. Por ser uma das mais antigas na vida militar, a Oficial 5 diz que “…não vejo diferença entre ser homem e ser mulher quando estou no trabalho. O tratamento que recebo é igual e o que importa é ser militar. Essa história está na cabeça de cada uma…”

Outra que sofreu preconceito foi a Oficial 6 quando estava grávida. Ela acrescenta que “…passei por várias situações embaraçosas quando estava grávida do meu primeiro filho por causa de preconceito de colegas oficiais. Um deles solicitou ao comando pra me transferir da organização militar.” É interessante ressaltar uma experiência que uma das entrevistadas comentou. Nesse caso não houve descriminação em relação em ser mulher. Ela disse que ao cruzar com o Comandante em um dos corredores, ela fez continência e foi surpreendida com a atitude dele que cedeu o espaço para que ela passasse. Naquele momento, ela sentiu que ele a tratou como uma mulher.”… ele foi gentil, educado e atencioso e nem ligou pra sua patente.”

Por conta de um descumprimento de uma ordem dada pela Oficial 4 a dois subordinados para limparem o auditório da corporação que seria utilizado no dia seguinte, o caso tomou grandes proporções pelo fato de ter sido solicitado por uma mulher e consequentemente por haver punições. Ela conta que ser enérgica, repreender ou chamar a atenção por um comportamento inadequado já era rotina do trabalho. Naquela manhã não foi diferente. “Como sempre faço, dou as ordens e em seguida vou verificar se fizeram o que foi solicitado. Ao chegar no auditório, para surpresa minha, os dois soldados estavam jogando baralho e não tinham feito nada.

Uma coisa é certa haverá sempre uma hierarquia em qualquer emprego. A mulher militar tem que mostrar serviço e lutar um pouco mais para se destacar no seu emprego. Independente de ser mulher ou não a vez sempre tem que ser dada a pessoa com a maior patente, seja nos corredores, na escada relata a Oficial 1. E acrescenta: “ Observamos a patente não interessa se é homem ou mulher e isso é o que nos direciona no procedimento diário como por exemplo quem abre a porta, quem tem que fechar, quem deve sair primeiro na frente, quem tem que dar o lugar, …sem problemas a gente já se acostumou com essa rotina”.

3. CONCLUSÕES FINAIS

As mulheres sempre tiveram grande encantamento pelas Forças Armadas e, quando tiveram oportunidade de ingressar nesse espaço militar, agarraram essa chance para conhecerem esse mundo totalmente desconhecido por elas.

Através dos depoimentos dados pelas militares entrevistadas, pode-se conhecer suas vidas no que diz respeito ao ingresso, a integração e identificação de alguns obstáculos enfrentados no relacionamento entre homens e mulheres dentro do serviço. Sem nenhuma dúvida a chegada dessas mulheres na Marinha, no Exército e na Aeronáutica trouxe mais respeito e civilização aos ambientes masculinos, incluindo comportamentos menos autoritários e o uso de um linguajar menos grosseiro.

As mulheres ainda trabalham enfrentando alguns obstáculos e algumas interdições como a falta de infra- estrutura nos alojamentos para recebê-las nos quarteis, pouca resistência física para desempenhar serviços pesados e sujos, aversão a ambientes isolados e enclausurados.

As militares mostraram que é possível contornar a vida familiar com a vida militar. Cumprem as escalas de serviço, os plantões noturnos, mesmo grávidas, e no dia seguinte dão expediente normal de trabalho, recorrendo a ajuda dos maridos e dos familiares.

Elas se sentem vigiadas pelos homens constantemente para que não sejam poupadas de nenhuma atividade, nem de escalas de serviço. Elas disseram que os homens acham que existe proteção as mulheres por parte dos seus superiores. Mesmo enfretando tantas dificuldades as Oficiais disseram estar satisfeitas pela escolha de suas carreiras militares.

A resistência dos subordinados ao comando feminino, pouco a pouco está acabando, pois o diálogo e a firmeza nas atitudes substituem o autoritarismo e assim, as mulheres conseguem conquistar o respeito, a competência e o reconhecimento do seu profissionalismo. Com o rompimento da discriminação e a garantia de que a mulher poderá ter acesso a prestação de serviço militar aos 18 anos, será dado um grande passo para diminuir as desigualdades.

Portanto, sem pretender ter esgotado todos os ângulos abordados no tema pesquisado, esperamos ter esclarecido sobre o ingresso voluntário das mulheres nas Forças Armadas brasileiras e suas condições de trabalho nos quartéis.

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